Sílvio Ribeiro da Silva**

A NOÇÃO DE GÊNERO

O termo gênero começou a ser utilizado por teóricas(os) e estudiosas(os) de mulheres e do feminismo no final da década de 70. Naquele momento, o movimento feminista ressurgia com força em todo o mundo, provavelmente por influência da onda revolucionária que percorrera a Europa, a China, a América Latina e os E.U.A, no final da década de 60, com os grandes movimentos estudantis e a contestação dos papéis e comportamentos sexuais. Betty Friedan, uma das primeiras lideranças internacionais do movimento, defendia o papel do trabalho criador para que a mulher, assim como o homem, pudesse encontrar-se e reconhecer-se como ser humano.

A partir daí surge, então, o conceito de gênero, formulado por pesquisadoras de língua inglesa, como Joan Scott e Gayle Rubin. No Brasil, segundo Rostagnol (2001), esta nova conceituação foi incorporada pela comunidade acadêmica no mesmo período.

Para Rostagnol, o termo gênero começou a ser utilizado justamente para marcar que as diferenças entre homens e mulheres não são apenas de ordem física e/ou biológica. Como não existe natureza humana fora da cultura, a diferença sexual anatômica não pode ser pensada isolada do "caldo de cultura" no qual sempre está imersa. Ou seja, falar de relações de gênero é falar das características atribuídas a cada sexo pela sociedade e sua cultura. A diferença biológica é apenas o ponto de partida para a construção social do que é ser homem ou ser mulher. Sexo é atributo biológico, enquanto gênero é uma construção social e histórica. A noção de gênero, portanto, aponta para a dimensão das relações sociais do feminino e do masculino.

A definição do gênero é obviamente mais complexa do que a simples determinação legal do sexo (registro civil), e isoladamente o ambiente não é capaz de causar mudanças na identidade dos indivíduos, ou tão pouco influenciar os comportamentos e as transformações idealizadas.

Ao fazer referência à categoria gênero, aponto para um debate que diz respeito à concepção do que é ser masculino e feminino, homem e mulher na sociedade, aspecto que interpela a experiência sexual dos sujeitos, modela o mundo dos significados eróticos, as transações sexuais, a realização do desejo e, em algumas circunstâncias, a própria obtenção do gozo. Nesse sentido, o gênero é um aspecto maleável do eu que torna possível que se reconheçam não apenas as semelhanças e igualdades existentes entre os sujeitos sociais homem e mulher, mas os padrões de coerência cultural que existem em razão mesmo da diferença que os separa, as contradições lógicas e emocionais que fluem desta coexistência binária (SCOTT, 1991; HEILBORN, 1994).

Levando-se em conta os papéis sociais legados ao homem em nossa cultura, observo que ser homem não representa a mera oposição ao ser mulher, mas ao ser um 'veado', homossexual, 'maricas', 'corno', 'bicha', figuras que articulam representações de feminilidade, fraqueza, impotência, subordinação, passividade, nas considerações de Parker (1991). Esse fato deixa ver as formas como o homem é engendrado numa sociedade de tradição patriarcal, ou seja, a partir de valores hegemônicos e estruturas de poder que o diferenciam da mulher e que ao mesmo tempo moldam seu comportamento.

Segundo Connell (1995), existe uma narrativa convencional que vê o gênero como um molde social, no qual a personalidade da criança nasce pronta, como uma fábrica de chocolate. Ao invés da personalidade nascer pronta e acabada, Connell propõe que seja um projeto, coletivo ou individual, que vai sendo construído aos poucos.

Inserida dentro da noção de gênero, encontra-se a de identidade, identidade sexual e identidade de gênero, assuntos apresentados na seqüência.

3 IDENTIDADE SEXUAL E IDENTIDADE DE GÊNERO - RECORTES TEÓRICOS

O conceito de identidade é relativamente novo na história da humanidade. Surge no Iluminismo e vai conquistando espaço na medida em que as discussões sobre a individualidade ganham importância. No início, se pensava em um "eu" monolítico e imutável. Tempos depois surgiu a idéia de um sujeito que se estrutura a partir de relações com outras pessoas. Por último surgiu a concepção na qual a identidade não é fixa ou permanente: a concepção do indivíduo pós-moderno. No dizer de Giddens (2002), a pessoa tem identidades múltiplas e as "veste" de acordo com o papel que exerce em um determinado momento: estudante, trabalhador, pai/mãe, marido/esposa, por exemplo.

As identidades sociais são fundamentais na construção social do discurso, posto que fornecem uma gama de informações que colaboram na construção conjunta dos significados. Como afirma Woodward (1997, p. 1), “a identidade nos dá uma idéia sobre quem somos, sobre como nos referimos aos outros e em relação ao mundo em que vivemos”.

O conceito de identidade de gênero e sexual foi iniciado por Stoller e Money há quatro décadas. Os trabalhos pioneiros destes autores, como nos mostra Moreira (1995), ampliaram a forma de pensar a relação homem/mulher, os conceitos de masculino/feminino, homossexualidade, transexualidade e o reducionismo biológico e psicológico.

Assim, identidade sexual é a persistência, unidade e continuidade da individualidade de uma pessoa como homem, mulher ou ambivalente, em maior ou menor grau, especialmente como é vivenciada em termos de autoconsciência e comportamento. Papel sexual é tudo que uma pessoa diz e faz, para indicar aos outros ou a si mesma o grau em que é homem, mulher ou ambivalente; inclui, mas não se limita, a excitação e resposta sexual. O papel sexual é a expressão pública da identidade sexual, e a identidade sexual é a experiência particular do papel sexual (MONEY; EHRHARDT)

http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/0701/04.htm