Este geminiano natural de Belo Horizonte é um admirável autodidata que se diz diplomado na Faculdade da Vida.
Seu hobbie: Pintura. E isto é constatável através dos quadros que decoram sua casa, inclusive uma excelente tela mostrando uma visão aérea de ala de baianas.

Como começou essa história de carnaval?
Eu tocava em um conjunto de samba show e no conjunto fui muito incentivado pelo Prego, o Pregão, porque ele percebeu as minhas músicas, notou que eu já compunha e tudo o mais. Foi quando me disse: “porque você não entra para uma Escola de samba?” E eu comecei. Fui, então, convidado pelo primeiro bloco carnavalesco de Belo Horizonte, o Partido Alto, do bairro Ipiranga. Isto foi lá nos inícios dos anos 80.

Então, podemos dizer que seu début na música foi há aproximadamente 20 anos?
Não. Comecei a tocar cavaquinho com 6 anos de idade, e para o público com uns 8, 9 anos.

Onde foi isso; colégio, grupo?
Mais ou menos (ele ri). Comecei a tocar nos bares durante o dia, junto com a velha guarda do bairro São Paulo, no gênero “chorinho”.
Já na adolescência, com 12 anos, eu toquei violão de 6 cordas e comecei a mostrar minhas musicas. Entrei para o Samba naturalmente, nunca forcei a barra, o que é muito importante. Tudo na minha vida aconteceu...
A minha carreira é regida pelo acaso...

Como assim?
As coisas que eu almejei, fazer música, e a música tomou conta da minha carreira, fui conduzido pela própria música e não fui eu que forcei a barra.
- Ah grava a minha música, eu sou isso, eu sou aquilo, nada disso as coisas aconteceram naturalmente.
Até que um dia a minha primeira escola, que foi a Cidade Jardim. Foram eles que me deram a primeira oportunidade e me rendeu aquele troféu ali (aponta para o móvel cheio de troféus). Quando eu ganhei o samba foi a festança das gerais. E ali, foi o meu primeiro tamborim de ouro, que foi o resultado na avenida desse samba aqui.. o melhor intérprete e o melhor samba enredo.

E depois da primeira escola?
Depois fui convidado pelo Canto da Alvorada, onde fui campeão também como intérprete e compositor.

A partir daí veio Guarani, e seis anos na Bem Te Vi. Depois eu vim a ser presidente por um ano da Inconfidência Mineira. E finalmente fundei a Império da Nova Era que é a nossa escola. Isto foi em março de 2004.

Fale de sua trajetória como artista.
As minhas composições foram gravadas por grandes intérpretes da MPB. Vou citar alguns: Agepê, Lecy Brandão, Neguinho da Beija Flor, Dominguinhos do Estácio, Razão Brasileira, Demônios da Garoa e muitos outros. E artistas daqui, como o Nonato, Toninho Gerais, Raimundo do Pandeiro. E os grandes artistas mineiros, tantos, graças a Deus.

Como é esta história de temporadas no exterior?
Foram três temporadas no Japão divulgando o trabalho de Minas e com meu nome, é claro. Isto foi na década de 90.
No Japão aprendi muita coisa... Com relação a comportamentos diferentes, de sistemas diferentes, primeiro mundo, coisas assim. Isto com relação ao caráter social e artístico. No Japão tem, talvez, 20 ou mais escolas de samba, e são muito boas; não ficam devendo nada às nossas.
Também viajei um bom pedaço do mundo, e conheci o Brasil todo tocando nas bandas de vários artistas... Morei no Rio de Janeiro, onde participei dos concursos de samba-enredo na Unidos da Ponte, Mangueira e Salgueiro. Em São Paulo participei do Camisa Verde e Gaviões da Fiel.

Conta pra nós um fato pitoresco.
Certa vez fomos tocar num lugarejo chamado Itapaioacanga, lá pros lados do Serro. Chegando lá, percebem-nos que o tal teatro onde deveríamos tocar não existia, era um depósito de lixo. Aí explicaram que o teatro era ali, sim, mas que ainda não estava pronto. O jeito foi tocar ali mesmo, e nem som instalado tinha. Por sorte havia umas barraquinhas pela rua...
Em outra feita, chegando no local ficamos sabendo que o pessoal não fora avisado que o quê nós tocávamos era samba. Veio uma turma de senhores, daqueles muito sistemáticos do interior de Minas, com garruchas e revólver na cintura e disseram: “Vai tocar o que nós quiser”, e tivemos de improvisar forró e música sertaneja até altas da madrugada. E olha que tínhamos levado mulatas e passistas, tudo com traje de passistas de escola de samba, etc, e o pessoal de repente achou aquilo tudo muito debochado, um escândalo e mandou a gente botar todo mundo na Kombi e zarpar dali.

Qual foi o momento máximo do Carnaval de BH?
Apesar de estarmos neste “brasão”, nesta história toda de o atual prefeito estar recebendo o título de 8º melhor prefeito do mundo, o melhor mesmo foi Maurício Campos, na década de 80, que fez o Carnaval daqui chegar a ser o segundo melhor Carnaval do Brasil. Nem São Paulo tinha avançado tanto.
Não gosto quando falam que SP era o cemitério do samba. Ali teve Adoniram Barbosa, e tantos outros. O importante é ressaltar os mineiros que fizeram sucesso lá fora, como Ari Barroso, Noca da Portela, Sinhô, que foram para o Rio e se destacaram ali. Mas isto não é motivo de nós nos regozijarmos, pois isto não trouxe nenhum benefício direto pra Minas.
Acho que a arte brasileira, o samba, por exemplo, não tem uma região específica de origem, ele é de todo lugar, é natural de todo lugar, ele é brasileiro. A gente por aqui, no interior de Minas, quando a gente chega por lá logo vem alguém querendo mostrar seu sambinha – aliás, Ari Barroso era contra os “sambinhas”; é samba ou não é samba. Enfim, a cultura do samba é brasileira, apesar de alguns falarem que nasceu ali e se consagrou ali. Há até alguma controvérsia; tem pesquisador que afirma que o samba nasceu na Índia. E daí?...
Claro, que no Rio de Janeiro ele encontrou mais recepção, é onde ele tem mais valor, essa coisa toda. E merecido, claro.
Esta é uma cobrança que Minas Gerais tem de fazer. Temos de atentar para isto, pois aqui em BH temos compositores de samba de muito valor, que o samba já virou praxe, tem este clichê que diz que “o samba é marginal, marginalizado, o samba é coitadinho, esta ‘grife’”, mas isto não é verdade. O samba é o samba, é alegria, lamento, a expressão máxima do sentimento poético brasileiro.

E o Carnaval “hoje”, em BH?
Tem uma palavra só que define isto: esperança.

O que você acha da introdução da Unidos do Arco Íris no Carnaval de BH?
Sou uma pessoa muito franca; acho que a idéia é maravilhosa, gostei particularmente muito, e acho que a maneira de conduzir uma escola com esta determinação, de ser para este público, GLS, a escola vai encontrar dificuldade, mas acredito que ela possa fazer um trabalho social muito maior que as outras.
Todo mundo fala que não tem preconceito, mas todo mundo tem. Elogia na frente e maltrata por trás. É preciso que tenhamos consciência de que são seres humanos, nada de diferente de ninguém. É a mesma situação quando falamos da pele, do negro. Existe também preconceito no próprio negro, como no próprio homossexual.
Agora, sem os homossexuais, não haveria Carnaval nem no Rio, nem em São Paulo, nem no Brasil nem em lugar nenhum, porque são as melhores pessoas, são os mais criativos, os mais dedicados e... ponto final.
Essa é a verdade.

Olhando para esta coleção, como foi ganhar todos esses troféus?
(são 16 Tamborins de Ouro)

Pra mim eles valem muito, é uma glória, claro, mas a matéria, o troféu em si, não é tão importante. O importante foi a conquista, o quê cada um representou. Tenho um orgulho muito grande de ter conquistado todos esses tamborins de ouro, por exemplo, não posso negar. Mas também nunca fui de ficar alardeando isto por aí.
Porém, sugiro que se volte com o troféu Tamborim de Ouro, o Pandeiro de Ouro, que se incentive o compositor, o cantor, a porta-bandeira, o mestre-sala, que é uma premiação à parte do Carnaval.

No começo da conversa você falou em esperança. Você tem alguma sugestão neste sentido?
Sim. Que realmente se concretize o sambódromo, pois assim, sem dúvida, o Carnaval daqui vai atrair o turismo, apesar de muita gente ainda não acreditar nisto. Penso que somos uma cidade modelo, mesmo apesar de sua pouca idade.

Mesmo com o sambódromo lá naquela lonjura?
Sim. Sou totalmente a favor do sambódromo ali. Veja bem: se você calcular, quando uma pessoa dizia que morava lá no bairro União, o povo dizia: “traz um tatu pra mim”. Hoje, isto já não está tão longe assim.
Muita gente defende outro local, até aquele perto na Câmara Municipal, mas acredito que, lá no Aarão Reis ele terá a possibilidade de se nuclear, com a montagem de barracões e quadras de ensaios naquelas imediações.

Vamos passar para o ping-pong final. Digo uma palavra e você diz outra afim.

Deus – tudo
Amor – verdadeiro
Amizade – sincera
Traição – medo
Sexo – lindo
Aids – complicado
Política – corrupto
Futebol – eu gosto
Time – América
Religião – a de cada um
Um filme – “A dama do lotação”
Ator e atriz – Matheus Nachtergale e Renata Sorah
A música de sua vida – “Sonata ao Luar”
Compositor – Noel Rosa
Cantor e cantora – Nelson Gonçalves e Alcione
Livro – a bíblia
Escritor – Machado de Assis e Nelson Rodrigues
Quem levaria para uma ilha deserta – minha esposa
Quem deixaria lá para sempre – ninguém
Um sonho – ver o Carnaval de BH crescer
Um recado – prestem mais atenção no artista mineiro

A pergunta final. Quem é Serginho BH?
Uma pessoa simples que gosta de viver e de ajudar, e gostaria de ser mais compreendido.

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