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RELATÓRIO DE PARTICIPAÇÃO
A Libertos Comunicação foi convidada a representar a ABGLT na 2ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, juntamente com o Grupo Igualdade, de Porto Alegre, realizada em Brasília de 18 a 20 de Março de 2009.
Primeiro dia, credenciamento. Eu, Osmar Rezende, e Marcelly Malta éramos convidados, e não delegados, e, segundo o regulamento, tínhamos direito a voz, mas não a voto, como os observadores.
Palestras e mais palestras.
No segundo dia os cerca de 600 participantes (desconheço o número oficial) se dividiram em 09 grupos de trabalhos, GTs, intitulados Eixos.
Eu estava inscrito para o de Educação, Cultura, Esporte e Lazer. E de repente me dei conta de que não teria vez ali, pois a mesa só se dirigia aos delegados. Então, interrompi educadamente o andamento e perguntei quando é que eu teria voz, previsto no regulamento da conferência. Disseram-me que só depois.
- Depois do quê? perguntei.
- Depois dos trabalhos encerrados, responderam.
- E eu fui convidado a vir aqui apenas para que vocês ouvissem minha bela voz no final?
Recomendaram-me deixar por escrito e entregar à mesa para posterior avaliação.
Começou aí minha maratona.
Fui de GT em GT - saúde, assistência social, violência - procurando me fazer entender. Queria apenas que eles percebessem que a equipe que elaborou aquele caderno com mais de 400 propostas havia cometido um lapso (fiz questão de não dizer a palavra falha), esquecendo de mencionar "não discriminação quanto à orientação sexual".
Não tinha jeito. No GT de saúde chegaram a me dizer que nós, GLBT, já tivemos nossa conferência, e pronto. Era tão óbvio que me senti enjoado, mas, retruquei: "Sim, os negros também tiveram a deles, as comunidades indígenas, as mulheres... E, assim como todas essas comunidades e todos vocês aqui, nós, homossexuais, também envelhecemos. Ou vocês acham que nós morremos lindos aos 29 anos?".
Marcelly Malta, a trans do Igualdade (POA), sofreu admoestação semelhante em seu Eixo - Gestão, participação e controle democráticos. Reagiu à altura e conseguiu pelo menos ser ouvida (vide relatório abaixo). Esta militante é super atuante e tem atitude pra dar, emprestar e vender! Além de uma simpatia ímpar.
No da violência, depois de muito incomodar, consegui um aparte e coloquei: “Tenho 58 anos e moro com minha mãe de 92. Daqui a dez anos serei um gay idoso sem pai nem mãe, sem filhos e netos e permita Deus que eu não precise desses abrigos que estão sendo pleiteados aqui, pois sei de casos de gays impedidos de frenquentá-los. Só peço a Deus que ilumine a cabeça e os caminhos de seus filhos, porque vocês.....”.
E saí sem olhar para trás, mas deu para ouvir alguns aplausos.
Em cada GT que eu passava deixava por escrito o pedido de inclusão da comunidade GLBT ou, simplesmente, a não discriminação por credo, etnia, sexo e orientação sexual - para que pelo menos fosse lido em algum momento, ou um anjo da guarda pegasse e incluísse no texto final.
Parece que deu certo. No dia seguinte, no almoço, duas pessoas, do Mato Grosso do Sul e do Pará, disseram-me que em seus GTs parecia ter havido esta inclusão.
Enquanto transcorria a plenária final, só para delegados, pude conversar com o sempre atencioso Perly Cipriano, Subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos da Presidência da República que me garantiu, com todas as letras, a inclusão da “não discriminação à orientação sexual”, acrescentando que este era, também, um compromisso pessoal dele. Aliás, esta nossa bandeira ele carrega com explícita solidariedade, além de suas peculiares sapiência e dignidade.
Considerações finais.
Se já foi uma batalha incluir “orientação sexual” nesta conferência, imagine se tentássemos nos inserir nas propostas que nos dizem respeito especificamente, como, por exemplo, os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) e a implementação e regulamentação da profissão de cuidador de idosos, estimulando e promovendo a formação permanente e cursos de capacitação continuada para esses profissionais.
Esses CREAS podem facilitar o acesso aos abrigos institucionais, casas lares, casas de acolhida temporária, casas de passagem, albergues, repúblicas e centros de convivência.
Assim como os cuidadores de idosos, penso que os profissionais desses CREAS deveriam ter um treinamento diferenciado para GLBTs. Nada semelhante consta do rol das propostas apresentadas e confirmadas.
Outro assunto chamou-me a atenção em especial. No Eixo Saúde aparece: “... doenças transmissíveis com evolução prolongada, como HIV-AIDS, tuberculose, hepatite e hanseníase”. Entretanto, na lista de propostas a aids não mais aparece. Cheguei a perguntar se eles tinham a taxa de idosos recentemente infectados pelo HIV. Sem sucesso. Perguntei se sabiam que este número é preocupante entre os homossexuais idosos, sobretudo devido ao uso de estimulantes como Viagra ou Cialis. Ninguém nunca ouvira falar nada a respeito.
Dispensável explicar porque não toquei mais no assunto.
Bem, aguardemos a redação final do novo Estatuto do Idoso.
Orientação sexual à parte, a conferência estava muito bem organizada, em todos os detalhes. Neste quesito os organizadores estão de parabéns. O local, por exemplo, Hotel Brasília Alvorada é perfeito para este tipo de evento.
Saudações arcoiridianas,
Osmar Rezende
Libertos Comunicação
Utilidade Pública – Lei 16035 MG
Belo Horizonte, 23 de Março de 2009.
A seguir, trechos extraídos do relatório de Marcelly Malta, do Igualdade, de Porto Alegre.
Gostaria de poder ter participado de outros eixos temáticos, como enfrentamento à violência e chamar a atenção para a saúde da população LGBT, mas não deixaram nem que eu entrasse alegando que já havia um numero maior de participantes que o permitido para esse eixo.
Fiquei no eixo “Gestão participativa e controle democrático”. Coloquei a situação da população de lésbicas gays, bissexuais, travestis e transexuais. Todos na sala ficaram surpresos porque achavam que a população LGBT não tinha nenhum problema em relação a pessoa idosa. Consegui não à discriminação ao idoso independente de sua condição social, raça, cor, religião , sexo e orientação sexual, que foi aprovado por unanimidade pela população idosa heterossexual presente naquele GT. Isso porque, creio eu, o Dr. Perly Cipriano teve uma fala a nosso favor, o que favoreceu a população LGBT. Também coloquei que todos os municípios, estados devam nos acolher em abrigos ou albergues fazendo uma capacitação ou sensibilização para a forma de tratar a nossa população que já é tão discriminada. As pessoas que estavam naquela plenária colocaram que nunca viram nenhum travesti em abrigos, nem sabiam que existia travesti idoso e ficaram curiosos querendo saber como queremos ser tratadas. Falei simplesmente que queremos ser tratadas de igual para igual, como todo ser humano deve ser tratado, com respeito e dignidade acima de tudo.
Novamente o Dr. Perly falou sobre o respeito e o cuidado que ele tem com a população de travestis e transexuais que são as mais discriminadas no Brasil afora. Outra fala minha foi em relação ao “cuidador familiar”, que no caso das travestis essa pessoa não existe, pois a família, os amigos e até o companheiro nos excluem nessa fase da vida, e a auto estima fica totalmente abalada. .Coloquei também que só temos apoio junto às ONGs que desenvolvem trabalhos com a população LGBT, pois não existem políticas públicas dirigidas à nossa população.
O final foi ótimo pois o Ministro Temporão veio conversar e agradecer minha participação, pois a população de travestis no Brasil merece todo o respeito e atenção, razão da importância da participação nas conferências nacionais.
Marcelly Malta

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